Reflexões no Urinol


 

 

 

Tudo começou com um urinol. Foi apresentado em 1917 numa exposição de arte contemporânea em Nova Iorque como uma obra artística assinada por um tal R. Mutt, com o título La fontaine. O Fontanário. A exposição era aberta a todos os artistas e as suas regras obrigavam os organizadores a aceitar as obras de arte que fossem propostas independentemente dos gostos de cada um, mas no caso de La fontaine as opiniões dos diretores da exposição dividiram-se e a maioria acabou por rejeitar a peça, sustentando que um urinol não é uma obra de arte mas um objeto industrial. E indecente, ainda por cima.

A decisão desencadeou um debate nos meios artísticos nova-iorquinos. Acontece que R. Mutt não existia, era o pseudónimo do artista francês Marcel Duchamp, um dos próprios diretores da exposição, e a apresentação do urinol constituía uma provocação para testar a tolerância dos seus colegas de direção e quebrar os limites da liberdade artística. O que é a arte? Pode um objeto industrial concebido para nele se urinar ser estético? Pode um artefacto repugnante constituir-se como uma obra artística? Pode o feio ser arte?

A polémica desencadeada por La fontaine surgiu no contexto da Grande Guerra, numa altura em que milhões de soldados eram trucidados no matadouro das trincheiras europeias. Perante tal calamidade, muitos artistas começaram a interrogar-se sobre se tinham o direito de fazer arte bela quando a realidade era tão feia. Considerando o horror do que se passava na Europa, e uma vez que a arte refletia a vida, não deveriam os objetos artísticos ser também horríveis? Não merecia a realidade que a arte urinasse nela?

O novo posicionamento de muitos artistas contaminou os diferentes ramos da arte contemporânea. Começou a generalizar-se o conceito da pintura abstrata, a poesia perdeu a rima e a música tornou-se cacofónica. Na literatura surgiram as obras ininteligíveis. Os escritores faziam questão de produzir romances com histórias tão desinteressantes quanto um urinol, ou mesmo romances sem história, e a atenção passou a centrar-se na linguagem como se a literatura começasse e acabasse na forma e nada mais existisse para além dela. A nova moda era o experimentalismo do texto e os escritores que aderiram a esta corrente anunciaram a morte da narrativa.

Esta evolução é muito interessante, suscita questões pertinentes, quebra barreiras, alarga horizontes e apresenta uma perspetiva válida da arte. O problema é quando se começa a considerar que toda a arte deve ser assim para todo o sempre. Toda a pintura e escultura tem de ser abstrata, toda a música cacofónica, toda a literatura uma experimentação. Tudo o que não alinhe por esta corrente não é arte e qualquer artista que se atreva a fazer diferente é vilipendiado e marginalizado. Instituiu-se a ditadura da desconstrução, o absolutismo da forma, a tirania da abstração.

Foi-se longe de mais. No caso da escrita, decidiu-se ignorar o facto evidente de que a história da literatura é a história da narrativa. A Epopeia de Gilgamesh, da Suméria, conta-nos uma história, e o mesmo faz o Beowolf no norte da Europa e a Bíblia na Judeia e Samaria. Estas obras relatam histórias, não fazem experimentalismos de linguagem e isso não impede que sejam literatura.

Em bom rigor, se há traço que une as principais obras da literatura universal é justamente o facto de contarem grandes histórias, mesmo através de pequenas histórias. O estilo é importantíssimo, como parece evidente e ninguém de bom senso nega, mas o que torna os romances verdadeiramente inesquecíveis é o conteúdo. Não por tais romances contarem simplesmente histórias, mas porque essas histórias nos remetem para algo de mais profundo, algo por que a alma humana anseia desde que o homem existe e pensa. A busca do seu lugar no universo, o conhecimento do passado e o vislumbre do futuro, o esforço de se entender a si e ao outro, a reflexão sobre como se deve organizar e governar e relacionar, o sentimento do belo e do justo e o entendimento do bem e do mal, do que é e do que deve ser, da mortalidade e da presença do divino, da origem, do sentido e do destino da vida. De tudo o que se relaciona com o mundo em que vive e para lá dele. Em suma, o ser humano busca a verdade.

Quem hoje ler Madame Bovary, de Flaubert, não pode deixar de ficar surpreendido por constatar que se trata de uma história relativamente banal, a de uma mulher casada que tem relações extramatrimoniais, contada com recurso a um estilo que, sejamos francos, nada tem de extraordinário. Se assim é, por que razão Madame Bovary se tornou um livro tão importante? Pelo simples motivo de que enunciou uma verdade proibida. Toda a gente sabe que há mulheres casadas que mantém relações extramatrimoniais, nada disso é novo, mas no Século XIX essa verdade nem sequer podia ser enunciada. E Flaubert fê-lo. Foi esse ato de coragem e honestidade, esse atrevimento por dizer o indizível, esse ato de verdade, que catapultou Madame Bovary para a história da literatura.

A literatura é uma busca da verdade, é o enunciar da verdade através das vestes da mentira. A ficção é uma mentira, todos o sabemos, mas essa mentira tem o estranho poder de nos fazer compreender a verdade de uma maneira vedada ao texto não ficcional. À Procura do Tempo Perdido, de Marcel Proust, é uma grande obra porque exprime uma verdade emocional sobre a nostalgia da infância, da mesma maneira que O Processo, de Franz Kafka, é uma grande obra porque exprime uma verdade profunda sobre a justiça num sistema totalitário e O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, é uma grande obra porque exprime uma verdade proibida no Século XIX sobre os párocos que tinham filhos das paroquianas.

A alma da literatura não está nos experimentalismos de linguagem, nos textos com muitas vírgulas ou sem vírgulas ou só com maiúsculas ou sem maiúsculas, mesmo que tais exercícios sejam interessantes e legítimos, mas na busca da verdade, essa eterna pulsão que move o espírito humano e que se alimenta das mentiras da ficção para procurar desvendar os mistérios da existência. Quem não o compreender, nada verdadeiramente compreenderá sobre a literatura e jamais sairá do labirinto em que se perdem as reflexões no urinol.

 

© José Rodrigues dos Santos, 2018.

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